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quinta-feira, 11 de março de 2010

O CHORO DE CABRAL

Sérgio Cabral chorou. Seu semblante apareceu na TV, emocionado. Teria sido pelas 250.000 vítimas do terremoto do Haiti? Ou pelas mortes igualmente trágicas do Chile? Não. Não foi. Nem pela triste e banal morte do atleta georgiano nas Olimpíadas de Inverno de Vancouver. Infelizmente, também não foi pela revoltante morte, após uma greve de fome, do dissidente cubano Orlando Zapata. Foi por algo ocorrido no Brasil.

Mas não pense, prezado(a) leitor(a), que foi pelo estudante Alcides do Nascimento Lins, covardemente morto em casa, enquanto estudava. Poderia ter sido, mas não foi pelos homens, mulheres e crianças tragados pela chuva do vizinho estado de São Paulo, levados pelas enchentes para dentro de enormes galerias, como se fossem detritos, ou abruptamente soterrados pelos deslizamentos de terra. Não foi também pelo trabalhador que perdeu a vida sentado em um coletivo, voltando pra casa, simplesmente porque se recusou a fechar uma janela, no bairro de Botafogo, no Rio.

Mas, convenhamos, não se chora só porque morre alguém. Os sofrimentos dos miseráveis, dos desvalidos, das crianças desamparadas e das que são abusadas até mesmo pelos pais, das mulheres agredidas pelos maridos, dos doentes que se encontram internados em UTIs, daqueles que esperam em filas de transplantes, dos que se encontram desabrigados, dos que vivem humilhados e oprimidos por uma ordem social injusta, pela ausência do braço social do Estado e pela presença do seu braço armado, que não raro ceifa vidas de jovens inocentes confundidos com criminosos; dos que não têm emprego e dos que não têm sequer comida - tudo isso pode nos fazer chorar. Mas Sérgio Cabral não chorou por isso. Pelo menos não hoje. Hoje, ele chorou por causa do pré-sal.

"Ó mar salgado! Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!" Verdade que as lágrimas de Cabral não foram tão copiosas; talvez (e aqui corro o risco de estar sendo injusto) tenham sido até um pouco forçadas. Mas este risco corro para dizer que, na verdade, deveria se alegrar o governador Cabral, pois decerto a maior parte do sal de nosso mar não vem do choro dos habitantes dos municípios fluminenses produtores de petróleo; antes viria de mais longe, trazido pelos rios, do mineiro do Vale do Jequitinhonha; do paulista do Vale do Ribeira, do sertanejo dos diversos estados do Nordeste - choro lavado pelos rios intermitentes que enchem quando das chuvas nas épocas de trovoada - , das populações ribeirinhas dos rios amazônicos - choro misturado na água doce, quase mar de tão abundante - e também do choro dos que vivem na Baixada Fluminense, que até recentemente também eram discriminados na luta pelos recursos decorrentes da exploração do petróleo.

Choro também dos brasileiros de outros tempos, tempos de escravidão, de exploração pela metrópole, de trabalho duro nos engenhos de açúcar, nas minas e nas lavouras de algodão, cacau e café; dos trabalhadores das fábricas, dos desempregados, dos pobres e dos miseráveis deste Brasil. Mas também dos que morreram e dos que tiveram seus familiares mortos na Revolução Pernambucana de 1917, na Confederação do Equador, na Praieira, na Cabanagem, na Sabinada e na Balaiada, na Revolução Farroupilha, no Paraguai, em Canudos, no Contestado - sem os quais nós talvez não fôssemos o Brasil, mas um punhado de repúblicas frágeis e distantes umas das outras, sem esse sentimento tão forte que nos une.

Ainda citando o célebre poema de Pessoa, "tudo vale a pena, se a alma não é pequena". E tenho certeza de que a alma dos cariocas não é pequena, como não era a dos heróis da Praia Vermelha, que se sacrificaram por um país mais livre e mais justo; hoje, porém, não se quer sacrifício de ninguém, apenas o fim de privilégios e a justa repartição das riquezas nacionais entre todos os entes federativos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

MULHER: UM SÉCULO PARA ROMPER PARADIGMAS

Nova Iorque, 08 de março de 1857. Durante uma greve pela redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas, 129 tecelãs morrem em incêndio provocado por seus patrões. A data deste trágico episódio foi proclamada como Dia Internacional da Mulher durante a 2ª Conferência de Mulheres Socialistas, por proposta da comunista alemã Clara Zetkin. No Brasil, a data foi comemorada pela 1ª vez em 1947.

Após séculos de dominação e inferiorização perante os homens, as mulheres, durante o século XX, conseguiram, à custa de muito esforço, melhores condições de trabalho, diminuição do preconceito e da desigualdade, mais respeito, liberdade e independência.

Entretanto, a situação ainda está longe de ser satisfatória. Como exemplo, citemos as diferenças salariais: não raro, a mulher ganha consideravelmente menos do que o homem pelo exercício de iguais atribuições. Além disso, uma das maiores vergonhas nacionais: a violência contra a mulher.

Pernambuco, infelizmente, é um dos estados com maiores índices de agressão contra as mulheres, a qual geralmente parte daqueles que deveriam defendê-las: pais, maridos e namorados.
 
Em vez de empunhar a bandeira do combate à violência, da busca pela igualdade de oportunidades e de remuneração, bem como da defesa da maternidade, muitas organizações feministas desviam a atenção da sociedade para pleitear o suposto direito ao aborto, sob pretexto de defender a liberdade de escolha, o "direito de decidir".

Quando milhares de mulheres são covardemente humilhadas, agredidas e mortas, muitos querem, sob forte influência de uma visão machista, o poder de covardemente tirar a vida de um ser indefeso, em formação. Este pensamento é profundamente machista, porque o ser que tem a bênção de poder ser mãe, de gerar uma vida, tem, por natureza, uma responsabilidade e um sentido de missão que jamais um homem poderia entender plenamente.

Assim, que este dia seja um dia de muita alegria, mas também de reflexão. A mulher, com o amor e a índole pacífica que lhe são peculiares, pode decisivamente ajudar a salvar este planeta. Mas para isso, precisa se assumir plenamente como mulher, rompendo um paradigma que carrega forte influência masculina, caracterizado pela exploração irrefreada dos recursos naturais, pela competição exacerbada e pela opressão do semelhante, o qual tem predominado nos últimos milênios.