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sábado, 24 de abril de 2010

O ESPELHO NÃO MENTE

Ciro Gomes teria tudo para ter sido um dos principais personagens políticos do país neste início de século. Candidato em 2002, seu apoio a Lula foi muito importante para a vitória deste contra José Serra. Mas não soube manter-se distante do poder. Ciro abriu mão de ser a terceira via para ser ministro de Lula, e, agora, quer se colocar novamente como opção para governar o país. Tarefa bem difícil, sobretudo porque o aliado “todo-poderoso”, além de não apoiá-lo, boicota o seu nome.

Dizia, antes da definição da pré-candidatura de Dilma, que queria ser o candidato de Lula, mas sinalizava que abriria mão de ser candidato em favor de Aécio Neves, do principal partido opositor do presidente. O povo não entende bem esses movimentos políticos.

Esse movimento aparentemente confuso parecia então exprimir o simples desejo de prejudicar os possíveis planos de José Serra, o que, apesar de suas discordâncias ou desentendimentos, não deixaria de ser mesquinho para um personagem que tinha – e ainda tem – um potencial tão extraordinário como liderança política do país. Ciro, felizmente, não é do time dos que se locupletam às custas das funções públicas. Esse, até prova em contrário, é um dos seus principais atributos.

Agora, surpreendendo a todos, Ciro declara que Serra é mais preparado do que Dilma.
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2010/04/23/ciro-gomes-diz-que-lula-o-pt-fizeram-ameacas-para-psb-retirar-sua-candidatura-916422813.asp
Surpresa não pelo conteúdo da afirmação. Afinal, não há dúvidas disso. Mas Ciro é, na política nacional, um dos maiores adversários declarados de José Serra. Por isso a surpresa. O PT, de pronto, se alvoroçou. Seus acólitos, que julgam Dilma a melhor candidata, são como a bruxa da história da Branca de Neve, que julgava ser a mais bela do mundo. Ciro, transparente como um espelho, mata-lhes a esperança.

Serra, presidente da UNE antes do golpe de 64, foi ministro da Saúde de FHC muito bem avaliado. Prefeito da maior cidade e governador do maior estado do país, com grande aprovação. Almeja, agora, a presidência da República. Algo que Ciro também almeja. Penso, porém, que esses dois líderes, no fundo, têm mais semelhanças do que diferenças. Da parte de Serra não se tem visto críticas a Ciro. Ciro se esforça, em toda ocasião que possui, para provocá-lo. Mesmo agora, elogiou, mas também soltou críticas – embora requentadas. Em 2002, a campanha de Serra foi desleal com Ciro. Mas águas passadas não deveriam mover o moinho. É preciso grandeza para não se deixar contaminar por episódios que eram parte de um contexto bastante restrito e específico. É preciso dar margem para que o outro se arrependa.

Fazer política com o fígado não é para estadistas. Seria muito importante para Serra ter o apoio de Ciro Gomes, por tudo o que ele representa na política nacional. Serra não é um arrivista, não é um político destemperado ou precipitado. Em um possível governo seu não se imagina que venham a ocorrer escândalos como os que imperaram nos últimos oito anos (e em menor grau também acometeram o governo de FHC). Portanto, em nome da ética e da democracia, um diálogo, franco e maduro, não seria importante entre estas duas grandes lideranças? Aécio, tão admirado por Ciro, não poderia, como neto do grande articulador Tancredo Neves, aproximar esses dois importantes líderes?

sábado, 30 de janeiro de 2010

UM EXÉRCITO NÃO SE FAZ COM UM SÓ HOMEM

O presidente da República, que foi parar no hospital em virtude do excesso de eventos em sua agenda, que o obrigou a adotar um ritmo alucinante, não só faz campanha deslavada pela sua candidata como também manda Eduardo "botar a tropa na rua", em um explícito chamamento para a antecipação indevida da campanha, o que, nunca é demais repetir, é ilegal.  Em tempos de carnaval, na terra do frevo, o presidente não tem nem a sutileza de pedir para Eduardo botar o "bloco" na rua. Ele manda. E manda botar a tropa. Sabe-se que uma tropa obedece fielmente as determinações do comandante. Se o general Lula mandou o capitão Eduardo botar a tropa na rua, não há o que conversar, mas apenas obedecer.
Para não ficar tão flagrante a sua postura de marionete de Lula, Eduardo tem tentado mostrar que os rumos de seu partido são independentes. Mantém o nome de Ciro Gomes como pré-candidato, contrariando os interesses petistas, que querem que o PSB apóie Dilma, inclusive para que esta possa ampliar o seu tempo de televisão. Mas fica claro que dificilmente resistirá à pressão do presidente, talvez o mais popular da história do país.
Esse presidente, que quer comandar com mão-de-ferro o processo sucessório no plano federal e também em vários Estados, contrasta bastante com aquele que dizia, quando do escândalo do mensalão, que "não sabia" ou que tinha sido traído. Um presidente que foi capaz de montar um esquema para jogar "debaixo do tapete" um dos maiores escândalos da história da República, não se enganem, é capaz de eleger até um poste.
Enquanto isso, Sérgio Guerra, em um frase um tanto infeliz e que não se coaduna com a sua propalada coragem e sensibilidade política, diz (como se lê no DP de hoje) que "Se Jarbas não for candidato, não há candidato".
Ora, senhores. Acaso Marco Maciel, Mendonça Filho, Raul Henry, Raul Jungmann e o próprio Sérgio Guerra não possuem envergadura moral e política para enfrentar o pupilo de Lula? As bandeiras políticas desse grupo não seriam suficientemente dignas de ser empunhadas? Certamente, à oposição não faltam nomes nem bandeiras e eleição nenhuma se ganha ou se perde de véspera. Claro que Jarbas é o nome que reúne melhores condições, no campo da oposição. Mas o próprio Jarbas já deixou claro que a oposição não pode ficar refém da sua decisão de concorrer ao governo. Talvez sem se perceber, o senador Sérgio Guerra admitiu, de certo modo, que Eduardo Campos é melhor do que qualquer um outro da oposição.
Se, contrariamente ao que, de forma inábil, sugeriu Sérgio Guerra, não faltam nomes nem bandeiras, que não falte coragem à oposição em Pernambuco. Coragem que não faltou, por exemplo, a Miguel Arraes, em 98, sendo candidato a governador contra Jarbas e abrindo mão de uma eleição segura para deputado federal, após um período de ferrenho combate à política de FHC, que inclusive custou caro ao Estado de Pernambuco, em termos de recebimento de recursos federais.