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sábado, 30 de janeiro de 2010

UM EXÉRCITO NÃO SE FAZ COM UM SÓ HOMEM

O presidente da República, que foi parar no hospital em virtude do excesso de eventos em sua agenda, que o obrigou a adotar um ritmo alucinante, não só faz campanha deslavada pela sua candidata como também manda Eduardo "botar a tropa na rua", em um explícito chamamento para a antecipação indevida da campanha, o que, nunca é demais repetir, é ilegal.  Em tempos de carnaval, na terra do frevo, o presidente não tem nem a sutileza de pedir para Eduardo botar o "bloco" na rua. Ele manda. E manda botar a tropa. Sabe-se que uma tropa obedece fielmente as determinações do comandante. Se o general Lula mandou o capitão Eduardo botar a tropa na rua, não há o que conversar, mas apenas obedecer.
Para não ficar tão flagrante a sua postura de marionete de Lula, Eduardo tem tentado mostrar que os rumos de seu partido são independentes. Mantém o nome de Ciro Gomes como pré-candidato, contrariando os interesses petistas, que querem que o PSB apóie Dilma, inclusive para que esta possa ampliar o seu tempo de televisão. Mas fica claro que dificilmente resistirá à pressão do presidente, talvez o mais popular da história do país.
Esse presidente, que quer comandar com mão-de-ferro o processo sucessório no plano federal e também em vários Estados, contrasta bastante com aquele que dizia, quando do escândalo do mensalão, que "não sabia" ou que tinha sido traído. Um presidente que foi capaz de montar um esquema para jogar "debaixo do tapete" um dos maiores escândalos da história da República, não se enganem, é capaz de eleger até um poste.
Enquanto isso, Sérgio Guerra, em um frase um tanto infeliz e que não se coaduna com a sua propalada coragem e sensibilidade política, diz (como se lê no DP de hoje) que "Se Jarbas não for candidato, não há candidato".
Ora, senhores. Acaso Marco Maciel, Mendonça Filho, Raul Henry, Raul Jungmann e o próprio Sérgio Guerra não possuem envergadura moral e política para enfrentar o pupilo de Lula? As bandeiras políticas desse grupo não seriam suficientemente dignas de ser empunhadas? Certamente, à oposição não faltam nomes nem bandeiras e eleição nenhuma se ganha ou se perde de véspera. Claro que Jarbas é o nome que reúne melhores condições, no campo da oposição. Mas o próprio Jarbas já deixou claro que a oposição não pode ficar refém da sua decisão de concorrer ao governo. Talvez sem se perceber, o senador Sérgio Guerra admitiu, de certo modo, que Eduardo Campos é melhor do que qualquer um outro da oposição.
Se, contrariamente ao que, de forma inábil, sugeriu Sérgio Guerra, não faltam nomes nem bandeiras, que não falte coragem à oposição em Pernambuco. Coragem que não faltou, por exemplo, a Miguel Arraes, em 98, sendo candidato a governador contra Jarbas e abrindo mão de uma eleição segura para deputado federal, após um período de ferrenho combate à política de FHC, que inclusive custou caro ao Estado de Pernambuco, em termos de recebimento de recursos federais.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A POLÍTICA SOB AS CHUVAS DE JANEIRO

Diante da falta de maiores novidades no cenário político nacional, sejam nomes ou idéias, a imprensa requenta as mesmas notícias, com novas roupagens. São verdadeiras novelas pré-eleitorais. Diria que a política nacional está submergindo em meio às chuvas que castigam vários estados do país, nesse mês de janeiro.
Uma delas é a demora de José Serra em assumir sua disposição em ser candidato a presidente. Não haveria nenhum problema em Serra se colocar perante a mídia, depois da desistência de Aécio, como alguém que tem pretensões de disputar a sucessão do presidente Lula. Seu silêncio até parece desdém. Ora, lembro que Lula, nas suas campanhas, andava o país de ponta a ponta. Se Serra quer ser candidato a presidente, que se coloque com antecedência. Mais, até: que se desincompatibilize o quanto antes, para poder viajar mais, apresentar-se para os que ainda não o conhecem, divulgar suas idéias, seu pensamento, suas análises sobre o cenário atual, enfim, sua forma de ver o mundo. Isto não é proibido, não é fazer campanha. É fazer política, algo essencial em um estado democrático e que nenhum tribunal poderia proibir.
Outra, é a discussão sobre quem seria o seu melhor candidato a vice. Aécio, que há pouco tempo atrás se considerava melhor opção do que José Serra, ser o vice deste, é uma piada. E chega a ser ingênuo achar que a “chapa puro-sangue”, por ter nomes de peso de São Paulo e Minas Gerais, teria maiores chances de vitória. Poderiam até largar com uma boa vantagem. Mas os tempos da política do café-com-leite há muito se foram; não sou especialista, mas acho que não é tão importante o quanto se tem no começo de uma disputa, mas sim o potencial de crescimento ao longo da jornada. E uma chapa que se fecha dessa forma para o Nordeste e também para o Sul limita bastante a sua caminhada. Sem falar no próprio Rio de Janeiro. Ou seja, não se dá espaço para outros partidos nem para outros estados. Quanto ao DEM, depois do escândalo no Distrito Federal, perdeu grande parte de sua força moral. Assim, o PSDB deveria ter a maturidade política de rever erros do passado e fazer uma aliança mais à esquerda. Tem um apoio importantíssimo, do ponto de vista ideológico, que é o PPS – herdeiro do antigo PCB. Por que não ter como vice alguém deste partido, como Itamar Franco, Roberto Freire ou o próprio Raul Jungmann?
Outra questão é a tal da lista tríplice para escolha do vice de Dilma Rousseff. É óbvio que o vice precisa ser alguém da mais estrita confiança do candidato a presidente. É absolutamente natural, como pretende o presidente Lula, que Dilma escolha o seu vice, dentre os que componham uma lista apresentada pelo PMDB.
Depois de Lula, parece que não há mais lideranças de peso no país. Embora muitas vezes seu governo pareça estar completamente sem rumo, não há como negar que, em termos de carisma e de popularidade, Lula é uma grande liderança. Por falar no PMDB, Simon e Jarbas, políticos de personalidade firme, estão nas apenas em um "balaio de gatos", mas em um “mato sem cachorro”, que é esse partido. Com todo o respeito aos históricos, hoje o PMDB envergonha a nação. O partido mais fisiológico, contraditório e decadente do Brasil. Nem o PP de Paulo Maluf nem o PR de Sandro Mabel o superam. Resquício anacrônico da época da ditadura militar, se antes abrigava os baluartes da luta democrática, hoje, sustenta verdadeiras sanguessugas do poder. O movimento democrático sagrou-se vitorioso, e uma de suas vitórias foi o pluripartidarismo. O que fez o PMDB? Continuou preso à bandeira de antes, como se ainda rivalizasse com a Arena, apenas por falta de projeto e propostas para o país. Tornou-se uma cooperativa de políticos interesseiros e vazios. Os que ainda continuam fiéis à antiga tradição, travam batalha desigual. A tentativa de resgatar o mínimo de seriedade dentro do PMDB é como tentar manter a ilha de Iwo Jima com os japoneses, sob ataque maciço dos americanos. E, realmente, “nunca antes na história deste país” se viu a democracia ser tão bombardeada, com tanta cooptação política, tanta troca de favores, tanta compra de votos e de consciências. Fechar Congresso, pra quê, se é possível tê-lo nas mãos em troca de benesses, muitas delas escusas?
Por isso, lamento que o PT não mostre também muita disposição de fazer uma aliança mais à esquerda, abandonando o PMDB e indicando para vice alguém do PSB ou do PDT. Ciro e Cristóvam, bons nomes até para presidente, seriam, caso aceitassem o encargo, excelentes vices, pelo que poderiam agregar em termos de idéias, de conteúdo, e por representarem forças políticas mais nítidas, mais coerentes. Principalmente Cristóvam, que mostrou protagonismo em 2006, diferentemente de Ciro que, sendo o candidato natural da “terceira via” para aquele pleito, preferiu ficar escondido atrás de Lula, durante o primeiro mandato deste, respaldando seu governo até mesmo durante o episódio do “mensalão”.
Falei antes que o PSDB deveria reconhecer alguns erros do passado e incluo também a necessidade de reconhecer virtudes do presente. Eis alguns exemplos: reconhecer que as privatizações foram uma dilapidação do patrimônio nacional, comprometer-se a manter a política de aumento do salário mínimo, bem como os programas sociais (porém com controle rígido contra fraudes e com a chamada “porta de saída”, para que o beneficiário possa se profissionalizar e se qualificar para obter seu próprio sustento), manter o trabalho de ampliação do mercado internacional para os produtos brasileiros, sem privilegiar apenas as relações com EUA e União Européia, combater fortemente as desigualdades regionais, mantendo investimentos estruturais na região Nordeste e valorizar o funcionalismo público, seja em termos de reajustes, seja em termos de realização de novos concursos. Além disso, ir além: comprometer-se com a erradicação do analfabetismo, com a proteção efetiva do meio-ambiente, com a promoção das fontes renováveis de energia, com uma reforma política moralizadora e com uma reforma tributária que seja justa para os estados consumidores. Lula, após os oito anos de FHC, em que tivemos a consolidação da estabilidade econômica, para ganhar, teve que conquistar a confiança dos mercados. Fazendo uma comparação, penso que Serra, para ganhar, após os oitos anos de Lula (apesar de seu governo ter ficado muito aquém das expectativas de alguém que se diga de esquerda), tem que conquistar a confiança desse eleitorado, consciente da imperiosidade de que se reduza ainda mais o abismo entre classes no nosso país - maior chaga de nossa República.