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quarta-feira, 28 de abril de 2010

O NAUFRÁGIO DE UM SONHO

"(...)
De novo atira o seu batel nas ondas,
Trabalha, luta e se afadiga embalde
Até que a morte lhe desmancha os sonhos.
Pobre insensato - quer achar por força
Pérola fina em lodaçal imundo!"
Casimiro de Abreu, "Fragmentos".

Assistimos, mais uma vez, ao naufrágio, ainda no ancoradouro, do sonho de um homem que queria ser presidente. Não se tratava de um lunático ou um arrivista. Em um país que se gaba de ter um presidente que foi operário, eleito sem diploma superior, negar-se o direito de alguém, com um currículo político como o de Ciro Gomes, ser candidato a presidente, é algo no mínimo estranho.

A Comissão Executiva Nacional do PSB não se furtou a elogiar Ciro Gomes e, na nota que foi divulgada nesta terça-feira (27), o fez nos seguintes termos:

Administrador vitorioso em diversos níveis de governo, homem de ideias e de atos em favor do País, Ciro Gomes engrandeceu o debate republicano” ( http://bit.ly/dl51nc ).

Logo, Ciro não foi considerado, em nenhum momento, um mau candidato ou uma má opção para o país.

Acaso o desempenho de Ciro Gomes nas pesquisas prenunciava um resultado semelhante ao de Aureliano Chaves ou Ulisses Guimarães, em 89? Longe disso. Embora em queda, sustentava-se próximo dos 10% - nada mau para um início de disputa.

Teria Ciro Gomes sido preterido por outro nome do PSB? Também não. Ninguém postulava, ao menos que fosse de conhecimento da grande mídia, tirar-lhe a condição de ser a opção preferencial dentre os socialistas.

Mesmo sendo uma pessoa séria e com boas idéias, sem rejeição ou concorrência dentro do partido e com bom potencial eleitoral, Ciro Gomes foi preterido por Dilma Rousseff, a pupila do presidente Lula, em troca de apoio deste e do seu partido a candidatos do PSB nos estados.

À falta de um nome mais apropriado para esse fenômeno, diria que o PSB está se peemedebizando.

Em três eleições consecutivas vimos episódios vergonhosos, de cerceamento do debate eleitoral, antes mesmo de iniciada a campanha. O PMDB tinha sido o protagonista nas duas ocasiões anteriores. Em 2002, negou o direito de Itamar Franco ser candidato. Em 2006, foi Anthony Garotinho a vítima. Hoje, é o PSB que nega esse direito ao ex-governador, ex-ministro da Fazenda, ex-ministro da Integração Nacional e deputado federal Ciro Gomes.

Ainda que não ganhassem, a simples presença de tais candidatos poderia alterar totalmente o jogo eleitoral, de forma imprevisível. Não há, portanto, como mensurar a falta que Itamar fez em 2002, ano da eleição de Lula. Ou a de Garotinho em 2006 (que tivera 15 milhões de votos em 2002). Nem é diferente com Ciro Gomes.

Os seus oponentes animam-se, na esperança de conseguir atrair o eleitorado recentemente órfão de outra opção. Não se apercebem, talvez, de algo perigoso para a democracia: candidato a presidente, no Brasil, parece estar em extinção.

sábado, 24 de abril de 2010

O ESPELHO NÃO MENTE

Ciro Gomes teria tudo para ter sido um dos principais personagens políticos do país neste início de século. Candidato em 2002, seu apoio a Lula foi muito importante para a vitória deste contra José Serra. Mas não soube manter-se distante do poder. Ciro abriu mão de ser a terceira via para ser ministro de Lula, e, agora, quer se colocar novamente como opção para governar o país. Tarefa bem difícil, sobretudo porque o aliado “todo-poderoso”, além de não apoiá-lo, boicota o seu nome.

Dizia, antes da definição da pré-candidatura de Dilma, que queria ser o candidato de Lula, mas sinalizava que abriria mão de ser candidato em favor de Aécio Neves, do principal partido opositor do presidente. O povo não entende bem esses movimentos políticos.

Esse movimento aparentemente confuso parecia então exprimir o simples desejo de prejudicar os possíveis planos de José Serra, o que, apesar de suas discordâncias ou desentendimentos, não deixaria de ser mesquinho para um personagem que tinha – e ainda tem – um potencial tão extraordinário como liderança política do país. Ciro, felizmente, não é do time dos que se locupletam às custas das funções públicas. Esse, até prova em contrário, é um dos seus principais atributos.

Agora, surpreendendo a todos, Ciro declara que Serra é mais preparado do que Dilma.
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2010/04/23/ciro-gomes-diz-que-lula-o-pt-fizeram-ameacas-para-psb-retirar-sua-candidatura-916422813.asp
Surpresa não pelo conteúdo da afirmação. Afinal, não há dúvidas disso. Mas Ciro é, na política nacional, um dos maiores adversários declarados de José Serra. Por isso a surpresa. O PT, de pronto, se alvoroçou. Seus acólitos, que julgam Dilma a melhor candidata, são como a bruxa da história da Branca de Neve, que julgava ser a mais bela do mundo. Ciro, transparente como um espelho, mata-lhes a esperança.

Serra, presidente da UNE antes do golpe de 64, foi ministro da Saúde de FHC muito bem avaliado. Prefeito da maior cidade e governador do maior estado do país, com grande aprovação. Almeja, agora, a presidência da República. Algo que Ciro também almeja. Penso, porém, que esses dois líderes, no fundo, têm mais semelhanças do que diferenças. Da parte de Serra não se tem visto críticas a Ciro. Ciro se esforça, em toda ocasião que possui, para provocá-lo. Mesmo agora, elogiou, mas também soltou críticas – embora requentadas. Em 2002, a campanha de Serra foi desleal com Ciro. Mas águas passadas não deveriam mover o moinho. É preciso grandeza para não se deixar contaminar por episódios que eram parte de um contexto bastante restrito e específico. É preciso dar margem para que o outro se arrependa.

Fazer política com o fígado não é para estadistas. Seria muito importante para Serra ter o apoio de Ciro Gomes, por tudo o que ele representa na política nacional. Serra não é um arrivista, não é um político destemperado ou precipitado. Em um possível governo seu não se imagina que venham a ocorrer escândalos como os que imperaram nos últimos oito anos (e em menor grau também acometeram o governo de FHC). Portanto, em nome da ética e da democracia, um diálogo, franco e maduro, não seria importante entre estas duas grandes lideranças? Aécio, tão admirado por Ciro, não poderia, como neto do grande articulador Tancredo Neves, aproximar esses dois importantes líderes?

sábado, 30 de janeiro de 2010

UM EXÉRCITO NÃO SE FAZ COM UM SÓ HOMEM

O presidente da República, que foi parar no hospital em virtude do excesso de eventos em sua agenda, que o obrigou a adotar um ritmo alucinante, não só faz campanha deslavada pela sua candidata como também manda Eduardo "botar a tropa na rua", em um explícito chamamento para a antecipação indevida da campanha, o que, nunca é demais repetir, é ilegal.  Em tempos de carnaval, na terra do frevo, o presidente não tem nem a sutileza de pedir para Eduardo botar o "bloco" na rua. Ele manda. E manda botar a tropa. Sabe-se que uma tropa obedece fielmente as determinações do comandante. Se o general Lula mandou o capitão Eduardo botar a tropa na rua, não há o que conversar, mas apenas obedecer.
Para não ficar tão flagrante a sua postura de marionete de Lula, Eduardo tem tentado mostrar que os rumos de seu partido são independentes. Mantém o nome de Ciro Gomes como pré-candidato, contrariando os interesses petistas, que querem que o PSB apóie Dilma, inclusive para que esta possa ampliar o seu tempo de televisão. Mas fica claro que dificilmente resistirá à pressão do presidente, talvez o mais popular da história do país.
Esse presidente, que quer comandar com mão-de-ferro o processo sucessório no plano federal e também em vários Estados, contrasta bastante com aquele que dizia, quando do escândalo do mensalão, que "não sabia" ou que tinha sido traído. Um presidente que foi capaz de montar um esquema para jogar "debaixo do tapete" um dos maiores escândalos da história da República, não se enganem, é capaz de eleger até um poste.
Enquanto isso, Sérgio Guerra, em um frase um tanto infeliz e que não se coaduna com a sua propalada coragem e sensibilidade política, diz (como se lê no DP de hoje) que "Se Jarbas não for candidato, não há candidato".
Ora, senhores. Acaso Marco Maciel, Mendonça Filho, Raul Henry, Raul Jungmann e o próprio Sérgio Guerra não possuem envergadura moral e política para enfrentar o pupilo de Lula? As bandeiras políticas desse grupo não seriam suficientemente dignas de ser empunhadas? Certamente, à oposição não faltam nomes nem bandeiras e eleição nenhuma se ganha ou se perde de véspera. Claro que Jarbas é o nome que reúne melhores condições, no campo da oposição. Mas o próprio Jarbas já deixou claro que a oposição não pode ficar refém da sua decisão de concorrer ao governo. Talvez sem se perceber, o senador Sérgio Guerra admitiu, de certo modo, que Eduardo Campos é melhor do que qualquer um outro da oposição.
Se, contrariamente ao que, de forma inábil, sugeriu Sérgio Guerra, não faltam nomes nem bandeiras, que não falte coragem à oposição em Pernambuco. Coragem que não faltou, por exemplo, a Miguel Arraes, em 98, sendo candidato a governador contra Jarbas e abrindo mão de uma eleição segura para deputado federal, após um período de ferrenho combate à política de FHC, que inclusive custou caro ao Estado de Pernambuco, em termos de recebimento de recursos federais.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A POLÍTICA SOB AS CHUVAS DE JANEIRO

Diante da falta de maiores novidades no cenário político nacional, sejam nomes ou idéias, a imprensa requenta as mesmas notícias, com novas roupagens. São verdadeiras novelas pré-eleitorais. Diria que a política nacional está submergindo em meio às chuvas que castigam vários estados do país, nesse mês de janeiro.
Uma delas é a demora de José Serra em assumir sua disposição em ser candidato a presidente. Não haveria nenhum problema em Serra se colocar perante a mídia, depois da desistência de Aécio, como alguém que tem pretensões de disputar a sucessão do presidente Lula. Seu silêncio até parece desdém. Ora, lembro que Lula, nas suas campanhas, andava o país de ponta a ponta. Se Serra quer ser candidato a presidente, que se coloque com antecedência. Mais, até: que se desincompatibilize o quanto antes, para poder viajar mais, apresentar-se para os que ainda não o conhecem, divulgar suas idéias, seu pensamento, suas análises sobre o cenário atual, enfim, sua forma de ver o mundo. Isto não é proibido, não é fazer campanha. É fazer política, algo essencial em um estado democrático e que nenhum tribunal poderia proibir.
Outra, é a discussão sobre quem seria o seu melhor candidato a vice. Aécio, que há pouco tempo atrás se considerava melhor opção do que José Serra, ser o vice deste, é uma piada. E chega a ser ingênuo achar que a “chapa puro-sangue”, por ter nomes de peso de São Paulo e Minas Gerais, teria maiores chances de vitória. Poderiam até largar com uma boa vantagem. Mas os tempos da política do café-com-leite há muito se foram; não sou especialista, mas acho que não é tão importante o quanto se tem no começo de uma disputa, mas sim o potencial de crescimento ao longo da jornada. E uma chapa que se fecha dessa forma para o Nordeste e também para o Sul limita bastante a sua caminhada. Sem falar no próprio Rio de Janeiro. Ou seja, não se dá espaço para outros partidos nem para outros estados. Quanto ao DEM, depois do escândalo no Distrito Federal, perdeu grande parte de sua força moral. Assim, o PSDB deveria ter a maturidade política de rever erros do passado e fazer uma aliança mais à esquerda. Tem um apoio importantíssimo, do ponto de vista ideológico, que é o PPS – herdeiro do antigo PCB. Por que não ter como vice alguém deste partido, como Itamar Franco, Roberto Freire ou o próprio Raul Jungmann?
Outra questão é a tal da lista tríplice para escolha do vice de Dilma Rousseff. É óbvio que o vice precisa ser alguém da mais estrita confiança do candidato a presidente. É absolutamente natural, como pretende o presidente Lula, que Dilma escolha o seu vice, dentre os que componham uma lista apresentada pelo PMDB.
Depois de Lula, parece que não há mais lideranças de peso no país. Embora muitas vezes seu governo pareça estar completamente sem rumo, não há como negar que, em termos de carisma e de popularidade, Lula é uma grande liderança. Por falar no PMDB, Simon e Jarbas, políticos de personalidade firme, estão nas apenas em um "balaio de gatos", mas em um “mato sem cachorro”, que é esse partido. Com todo o respeito aos históricos, hoje o PMDB envergonha a nação. O partido mais fisiológico, contraditório e decadente do Brasil. Nem o PP de Paulo Maluf nem o PR de Sandro Mabel o superam. Resquício anacrônico da época da ditadura militar, se antes abrigava os baluartes da luta democrática, hoje, sustenta verdadeiras sanguessugas do poder. O movimento democrático sagrou-se vitorioso, e uma de suas vitórias foi o pluripartidarismo. O que fez o PMDB? Continuou preso à bandeira de antes, como se ainda rivalizasse com a Arena, apenas por falta de projeto e propostas para o país. Tornou-se uma cooperativa de políticos interesseiros e vazios. Os que ainda continuam fiéis à antiga tradição, travam batalha desigual. A tentativa de resgatar o mínimo de seriedade dentro do PMDB é como tentar manter a ilha de Iwo Jima com os japoneses, sob ataque maciço dos americanos. E, realmente, “nunca antes na história deste país” se viu a democracia ser tão bombardeada, com tanta cooptação política, tanta troca de favores, tanta compra de votos e de consciências. Fechar Congresso, pra quê, se é possível tê-lo nas mãos em troca de benesses, muitas delas escusas?
Por isso, lamento que o PT não mostre também muita disposição de fazer uma aliança mais à esquerda, abandonando o PMDB e indicando para vice alguém do PSB ou do PDT. Ciro e Cristóvam, bons nomes até para presidente, seriam, caso aceitassem o encargo, excelentes vices, pelo que poderiam agregar em termos de idéias, de conteúdo, e por representarem forças políticas mais nítidas, mais coerentes. Principalmente Cristóvam, que mostrou protagonismo em 2006, diferentemente de Ciro que, sendo o candidato natural da “terceira via” para aquele pleito, preferiu ficar escondido atrás de Lula, durante o primeiro mandato deste, respaldando seu governo até mesmo durante o episódio do “mensalão”.
Falei antes que o PSDB deveria reconhecer alguns erros do passado e incluo também a necessidade de reconhecer virtudes do presente. Eis alguns exemplos: reconhecer que as privatizações foram uma dilapidação do patrimônio nacional, comprometer-se a manter a política de aumento do salário mínimo, bem como os programas sociais (porém com controle rígido contra fraudes e com a chamada “porta de saída”, para que o beneficiário possa se profissionalizar e se qualificar para obter seu próprio sustento), manter o trabalho de ampliação do mercado internacional para os produtos brasileiros, sem privilegiar apenas as relações com EUA e União Européia, combater fortemente as desigualdades regionais, mantendo investimentos estruturais na região Nordeste e valorizar o funcionalismo público, seja em termos de reajustes, seja em termos de realização de novos concursos. Além disso, ir além: comprometer-se com a erradicação do analfabetismo, com a proteção efetiva do meio-ambiente, com a promoção das fontes renováveis de energia, com uma reforma política moralizadora e com uma reforma tributária que seja justa para os estados consumidores. Lula, após os oito anos de FHC, em que tivemos a consolidação da estabilidade econômica, para ganhar, teve que conquistar a confiança dos mercados. Fazendo uma comparação, penso que Serra, para ganhar, após os oitos anos de Lula (apesar de seu governo ter ficado muito aquém das expectativas de alguém que se diga de esquerda), tem que conquistar a confiança desse eleitorado, consciente da imperiosidade de que se reduza ainda mais o abismo entre classes no nosso país - maior chaga de nossa República.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

FALTA DE COERÊNCIA OU DE TRANSPARÊNCIA?

Li agora há pouco notícia no UOL sobre a novela da compra dos aviões-caça (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u678981.shtml). Segundo a notícia, o presidente Lula teria dito:
"Pode ser esse ano, obviamente que não posso deixar [para o próximo governo]. O governo passado já deixou para mim. Quando entrei em 2003 tinha que tomar essa decisão, mas acontece que eu tinha que escolher ou combater a fome ou comprar avião e eu preferi combater a fome no país. Por isso, que não dei prioridade".
Nosso presidente deve andar muito atribulado. Faltam-lhe assessores, talvez, para ajudar a cuidar das várias tarefas inerentes ao cargo. Por isso, ele anda meio esquecido (na melhor das hipóteses). Pois o Fome Zero, uma das principais bandeiras de campanha, não foi esquecido pouco depois do início do seu 1º mandato?
Além disso, algo mais lhe fugiu da mente. Não foi no governo dele que se comprou um avião de luxo para a presidência, que foi até mesmo apelidado de "Aerolula"?
Recordo-me de quando fui sozinho a um comício no pátio da Igreja do Carmo, aqui em Recife, ver e ouvir o então candidato Lula, em 1998. Brizola do seu lado. Salvo engano, Arraes também estava. Recordo-me da época em que acreditava nesse presidente! Também, ladeado por alguém como Brizola! Era pura empolgação. Recordo quando ele dizia algo mais ou menos assim: que seu sonho era fazer com que toda criança tivesse café-da-manhã, almoço e jantar.
Presidente, não viva de ilusões. Não viva na ilusão do "espetáculo do crescimento". No sonho de fazer seu sucessor. Lembre da época em que seu sonho era acabar com a fome no país. A fome ainda não acabou, presidente. Portanto, seja coerente. Não queira saber de aviões enquanto houver fome no Brasil. Ou, então, seja transparente. Admita que seu discurso foi eleitoreiro. Compre os caças, e não engane novamente o povo brasileiro. Não brinque com os sentimentos de uma criança que, porventura, tenha lhe assistido prometer acabar com a sua fome.